Contadora de histórias Giuseppina Burigo representa o Brasil em evento na Colômbia

A contadora de histórias paulistana Giuseppina Burigo será um dos destaques  internacionais do V Encuentro Internacional de Narradores Orales “Cántaro de Cuentos”, que acontece nos dias 8, 9 e 10 de agosto, na Antioquia de Itaqui, na Colômbia.

Ao lado das brasileiras Liz Ângela Gonçalves, Daniele Pamplona e Patrícia Fernanda Bittencourt, bem como artistas da Argentina, Bolívia, Costa Rica e Colômbia a atriz e cantora do Grupo MIM MEI MAC leva para o evento os encantos e magia da sua arte de contar histórias.

Nesta entrevista, Giuseppina revela sua trajetória profissional e propõe a contação de histórias como uma porta de entrada para um mundo de infinitas possibilidades.

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Yve de Oliveira – Você tem uma trajetória profissional voltada para as artes cênicas e a contação de histórias. Em qual momento você percebeu que esse seria o seu propósito de vida?

Giuseppina Burigo – Fui convidada assim que terminei a graduação para narrar o livro “Os fantasmas da casa mal-assombrada” no CEU Parelheiros. Eu que sempre gostei de contos de suspense, aventura e toques de terror amei o livro e me debrucei em todo um trabalho de como transformar aquelas páginas para a oralidade da forma mais suculenta que eu pudesse, muito movida pelo desejo de que o que eu mais queria era que aquelas crianças, entre 9 e 10 anos, encontrassem na minha narrativa, ali, só com palavras, sons vocais e poucos movimentos corporais as sensações e desejos de continuar aquela história para chegar ao fim.

No dia eu estava lá, com mil borboletas na barriga, um microfone e as crianças em meio círculo em torno de mim (alguns com a maior cara de “sério que vão obrigar a gente a ouvir historinha!?”) e daí a magia aconteceu. Ver os olhos e corpos de “sou grande para ouvir história” mudarem para um estado de atenção acompanhando cada passo dos personagens, observar as cenas sendo construídas mentalmente me encantou oficialmente. Encantei-me loucamente pela riqueza de criação e liberdade que a narrativa proporciona. Eu não mostrava a casa, eu não ilustrava e cada criança era livre para construir a sua casa assustadora e os rostos, corpos e formas de agir de cada personagem com estímulos simples.

Antes da faculdade eu havia feito Magistério (um curso de nível técnico que formava professores) e cada aula prática eu sentia uma necessidade imensa de contar história. Acho que eu mais contava histórias que dava aula de matemática, ciências, português, história, geografia. Eu sempre tentava achar alguma história para dialogar com o resto da minha aula. Acho que aí já tinha algo florescendo, né?!

O ator Pepito Mateo escreve em seu livro que se “interessava pela força de vida dos personagens, pela simplicidade das ações, pela energia do conto, pela simbologia um pouco misteriosa, pela liberdade, pela subversão dos fracos contra os poderosos e por aproximar-se do universo dos sonhos” que lhe permitia passar pelo tempo e espaço; além disso, ele cita que lhe agradava a expressão efêmera e frágil do narrador, que tem apenas seu corpo e voz para criar universos complexos e isso constitui justamente em um campo infinito de possibilidades. Identifico-me com esse pensamento. O narrar me conquistou pela infinitude de possibilidades!

YO – Quais as suas referências na literatura, nas artes e como você construiu a sua identidade como artista?

GB – Uau! Vou tentar ser breve porque sou do tipo de gosta de muitas coisas e daí sai experimentando possibilidades! Minha identidade como artista penso que é uma grande miscelânea, de cada mestre, de cada amigo, de cada experiência de vida! Uma miscelânea que começa lá quando estava no baby class de ballet e não queria fazer a aula porque não gostava da roupinha rosa, de quando tinha cinco anos e inventei que queria estudar órgão porque havia me encantado com o som ao ver meu primo tocar ou de quando ao dez entrei nas aulas de teatro porque era uma criança excessivamente tímida.

Para pontuar alguns mais recentes tive um encantamento forte quando tive a oportunidade de participar de uma oficina com o professor e diretor Mario Biagini, do Workcenter Jerzi Grotowski. De certo modo, esse experimento foi um divisor de águas, com sua forma direta e carinhosa de dizer me fez pensar e repensar muito do que havia vivido até então em arte e várias fichas foram caindo, abrindo espaço para um caminho de redescoberta de mim. Durante a faculdade poder estudar com a Gabriela Rabelo semeou caminhos de escrita, de pensar a dramaturgia das minhas escolhas cênicas. Gilberto Chaves me mostrou que era possível sim cantar quando eu mesma pouco acreditava em mim e me orienta vocalmente nos caminhos da minha voz cantada. Paulo Capovilla e Sueli Gonçalves me apontaram a responsabilidade que é ser artista. Na pós-graduação n’A Casa Tombada tive espaço para olhar minha prática artística na sociedade e limpar questões que vinham me incomodando no meu fazer artístico. Outro divisor de águas se deu recentemente, com Eleni Vosniadou, do Curso de Consciência Corporal para Músicos, curso baseado na técnica Alexander, onde vi consciência corporal de uma maneira totalmente diferente do que havia visto até então. Me deu uma proporção muito maior de consciência e cada curso, cada mestre, cada oficina, cada workshop, ainda que breve constituem minha identidade. Me sinto até injusta por não citar um por um!

Na literatura sou devoradora de livros desde que aprendi a ler, com um período agravado a partir dos 9 anos, quando a estante de casa ficou repleta dos livros que minha prima havia lido na escola e me deu. Eu li tudo. Não queria dormir para ficar lendo. No momento tenho lido muito Marina Colasanti, Mia Couto e Eduardo Galeano.

YO – Porque contar histórias? Qual a importância dessa ação no cotidiano de crianças, jovens e adultos?

GB – As histórias são um infinito de possibilidades e não é somente um infinito de possibilidades de construções de castelos, mas de reflexões sobre o mundo em que vivemos, sobre nossa sociedade, nossas condutas, nossos olhares. O conto é completo, traz o atemporal que cabe a todos e liberta pela necessidade de cada ouvido.

YO – Enquanto artista você também tem uma formação e atuação com o canto lírico. Conte-nos como você integrou esta vocação nas suas apresentações?

GB – O canto lírico é bem recente na minha formação, comecei a estudar há cerca de dois anos como uma complementação e enriquecimento técnico e confesso que estou amando, pois enriquece me dando mais possibilidades de jogos vocais para minhas narrações musicais. Sou formada em canto popular e isso influiu muito nas minhas apresentações. A Roberta Scavone e eu começamos o Grupo  MIM MEI MAC com a intenção de experimentar a música na narração, daí começamos a compor pequenos versos, o Wellington Silva entrou para o Grupo e começamos a experimentar a narrativa; no caso de uma história real do nosso país, a Ditadura Militar, criamos o Canto Calado. Depois o Wellington e eu começamos a compor histórias cantadas – inspirados nos contos, mitos e lendas – e cada vez mais, a música integrou-se como nossa assinatura na arte de narrar.

YO – Você já foi premiada três vezes pela a sua atuação como contadora de histórias, e, também já realizou formações com grandes nomes da cultura nacional e internacional como Calixto de Inhamuns, Ivaldo Bertazzo, Paulo Capovilla, Dominic Kelly e Jean Jacques Lemétre. Onde você se percebe mais recompensada e grata na sua carreira até este momento?

Sou grata por cada experiência na minha carreira até o momento! Cada curso, cada oficina me encaminhou para cada nova conquista até chegar onde estou hoje e poder seguir em frente.

YO – Você foi convidada para participar neste mês de agosto no V Encuentro Internacional de Narradores Orales “Cântaro de Cuentos”. Como será a sua apresentação e qual é o sentimento de representar o Brasil em um evento como este?

GB – Borboletas na barriga! Sinto-me muito recompensada e feliz por ter sido escolhida entre tantos bons narradores e narradoras para estar entre as quatro brasileiras que estarão no “Cántaro de Cuentos”. Sinto-me muito responsável e conforme vai chegando mais perto do dia de ir as borboletas se agitam para levar um pouquinho das criações minhas e do Wellington Silva para Itaguí, na Colômbia.

Ano passado estive na Venezuela também em um Encontro Internacional e foi uma experiência maravilhosa de intercâmbio cultural, sinto que essa maravilha do intercâmbio cultural acontecerá na Colômbia e depois, quando voltar para o Brasil, quero trazer para cá para compartilhar com os brasileiros, um pouco do que lá vivi.

YO – Você está com algum espetáculo em cartaz ou projeto que que podemos divulgar para todos os interessados em arte, cultura e literatura?

GB – No momento não estamos com nenhuma apresentação aberta ao público, somente eventos fechados, porém em nossas redes sociais podem acompanhar o trabalho do Grupo MIM MEI MAC e fazer contatos com nossa produtora, a Camila Scatena, para agendamento de apresentações.

Nas nossas redes, nesse período na Colômbia, pretendo compartilhar muitos momentos para que de qualquer lugar possam conhecer um pouquinho do evento e de cada narrador, da cultura dos diferentes países que estarão lá.

Para conhecer mais sobre a artista Giuseppina Burigo acesse:

Facebook: http://www.facebook.com/mimmeimac

Instagram: @mimmeimac

Youtube: http://www.youtube.com/mimmeimac

Reportagem: Yve de Oliveira

Imagens: Acervo da artista Giuseppina Burigo

 

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