Escritora Francine Machado lança livro infanto juvenil sobre gordofobia

Na última sexta-feira, 3 de agosto, a escritora Francine Machado lançou na 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo o seu novo livro infanto juvenil  intitulado A Pirueta da Bailarina Fofinha.

A história que apresenta a personagem Lola, uma estudante que se apaixona pelo balé, destaca a temática da gordofobia e busca provocar entre estudantes, famílias e educadores reflexões importantes sobre diversidade, preconceito e bullying.

Nesta entrevista para o Lugar de Fala, a escritora, arte-educadora, produtora cultural e contadora de histórias compartilha a sua narrativa pessoal e profissional, revela as entrelinhas do seu livro recém-lançado e sua preocupação em propor uma literatura de vanguarda que discuta temas voltados para os direitos humanos, por meio da ludicidade.

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Yve de Oliveira – Nesta semana, na Bienal do Livro de São Paulo, você lançou o livro infanto juvenil A Pirueta da Bailarina Fofinha que aborda o tema da gordofobia. Qual a importância de trabalhar essa temática dos direitos humanos entre as crianças, como essa história surgiu? Você tem outros livros com temas relacionados a este?

Francine Machado – Sinto que há uma urgência no trabalho a favor da diversidade porque as gozações que passamos mais diluída em nossas infâncias – e que atingia a todos mais ou menos uniformemente, têm se mostrado mais pontual e com alguns alvos específicos que são constante alvo de preconceitos nas mais variadas formas: negros, gays, gordos, estrangeiros… Também imagino que hoje tenhamos um olhar mais sensível e cuidadoso para isso, já que muitos dos alvos desses bullyings muitas vezes até abandonam os estudos. Em tempos sombrios mais e mais preconceituosos têm se sentido à vontade para serem declaradamente racistas, machistas, xenófobos, LGBTfóbicos, gordofóbicos, psicofóbicos. É preciso marcar território: aqui na arte e educação não! Estamos mais atentos. Até pelo fato de que hoje fazem cyberbullying e podem tornar o ambiente escolar ainda mais excludente. Tenho outras obras nesta linha, porém ainda inéditas. O anterior, primeiro que publiquei, estava mais centrado na temática sustentável, porém também destacava sabedoria indígena.

YO- Você é contadora de histórias, jornalista e tem formação em artes. Como e quando nasceu a escritora Francine? Em algum momento da sua infância, adolescência você se imaginou neste lugar de atuação profissional?

FM – Desde criança escrevia e desenhava livrinhos artesanais e caseiros. Vivia com caderninhos embaixo do braço e muitas vezes, enquanto meus primos faziam alguma coreografia de gosto duvidoso, estava inventando personagens ou escrevendo sobre a visita aos padrinhos. Era a nerdzinha literária “meio ostra”, no meu canto. Algumas dessas obras migraram para o computador e foram aprimoradas em oficinas literárias. Participei de três coletâneas, publiquei um infanto juvenil fomentado pela Rouanet na Editora Evoluir e agora este novo, A Pirueta da Bailarina Fofinha, pela Scortecci. Só anos mais tarde o teatro me tirou da toca tímida e criativa em que vivia, quando passei a criar peças e dirigir amigos em cena, até antes de ver peça ao vivo – provavelmente por estímulo educativo, por isso destaco na obra nova, como professores podem ajudar os estudantes em sonhos que fujam muito de seus universos familiares. Ainda criança cismei com o jornalismo: era onde iam parar as pessoas da minha geração que gostavam de escrever. Ouvi muito que seria escritora ou me meteria no teatro desde jovem, então penso que fui sonhando com estes destinos profissionais meio precoce.

YO- O Brasil ainda apresenta índices altos de analfabetismo funcional. Cerca de 70% da população apenas decifra os códigos linguísticos sem compreendê-los em profundidade. Como os pais e professores podem transformar essa realidade?

FM – É um desafio e tanto para pais, professores, escritores, formadores e artistas. Tenho mais experiência no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) do que com infantil, no qual contei mais histórias do que ensinei formalmente. Minha intuição, já que meus estudos são mais na arte educação e tenho mais experiência do que repertório acadêmico é a de que a pedagogia não é o único caminho. Imagino que se cada especialista, que já foi estudar matérias especificas do fundamental II e médio por paixão, seguir esmiuçando as áreas que ama, encontrará uma forma de alfabetizar geográfica, científica, matemática e etc. Busco isso no teatro educação, literatura e narração de histórias. Mas nem sempre temos o tempo e os resultados que precisamos e queremos. Os estudos que encontramos fogem ao que é viável no chão de escola, então é preciso muita troca de experiência, persistência, experimentação e adoção de vivências que colaboram com o problema dos analfabetos funcionais.

YO – Na sua opinião existem temas que não podem ser tratadas na literatura infanto juvenil? A partir da sua experiência profissional, quais são os temas que as crianças mais se interessam?

FM – Acho que na verdade as crianças e jovens estão abertas, interessadas e lidam melhor com temas que os adultos tratam como tabu. Como morte, por exemplo, explorava bem nas contações que fazia em hospital, claro que de um modo lúdico. Penso que se abordarmos temas dos quais os adultos têm medo – já que a criança ainda está num faz de conta que facilita abordar tudo quanto é questão – por analogias, metáforas, explorando imaginação, não há terrenos proibidos. Elas gostam de histórias que tratem do universo fantástico, do medo, de enfrentamento de obstáculos, do mágico, de trabalhar perdas, novos tipos de princesas, mistério, entre outros temas.

YO – Francine, para você qual a diferença entre ler e contar histórias? Existe algum ‘segredo’ para alguém se tornar um bom contador de histórias?

FM – A leitura é um caminho mais solitário, porém muito rico. Na contação partilhamos nossas descobertas literárias, brincando com o ator que dorme na maioria de nós e resgatando os avós, tios, mães que contavam bem em nossa infância. Há um caminho da pesquisa, de leitura mesmo, para criação de repertório, ensaio de narrações e experimentação meio cênica, meio narrativa do recebimento das histórias escolhidas por diferentes públicos. A contação também requer vivência e neste sentido, quem não vem de família de contadores, vai se formando em ONGs educativas, hospitais, associações culturais e fundações voltadas à infância, além de cursos livres – há muitos no nosso contexto urbano.

YO – Na sua trajetória profissional se destacam também narrações no programa de televisão Quintal da Cultura, atuação em projetos de escolas bilíngues indígenas, a escrita de poesias, contos, crônicas e até casamentos e festas personalizadas.  Conte-nos um pouco mais sobre os desafios e os encantos dessas experiências artísticas.

FM- Na TV foi um desafio porque o estudo de vídeo que se faz na comunicação não interagia com a câmera, cortávamos mais as fontes do que dávamos espaço para suas participações. Na TV Cultura foi mais teatral, a câmera era o telespectador e com os personagens, havia espaço para o brincar em parceria.

Na Argentina, pelo coletivo Aty Saso contamos histórias em escolas bilíngues indígenas, recebemos contos, lendas e narrações, editamos, publicamos e lançamos no Museu do Imigrante uma coletânea em espanhol, português e nos idiomas nativos Wichi, Qom e Pilagá. Foi um intercâmbio cultural que nos nutriu muito.

A criação de poesias, contos e crônicas me acompanham desde a infância e adulta, foram uma espécie de válvula de escape, já que fiquei 18 anos no jornalismo e na comunicação, havia um formato de texto mais técnico que tinhamos que seguir na maioria das publicações. Minha expressão literária criativa ficava para as coletâneas e blogs. Em paralelo estudo teatro há anos. Por isso acabei unindo antigas paixões e estudos mais ou menos recentes em aniversários, comemorações de conhecido há muitos anos casados e casamentos. Neles usei a escrita e a performance para celebrar histórias que conheci detalhes entrevistando pessoas próximas, para ter uma certa surpresa na hora em que os personagens reais ouvissem. Ensaiando me divertia muito, mas nas contações, fiz sem querer vários chorarem.

YO – Como é o seu processo de criação? Quais temas, situações que te inspiram a escrever e narrar?

FM – Estou sempre namorando novos livros, alguns me inspiram adaptações, ensaios, produções e contações posteriores. Depende da história, do tempo e do evento, leio muito, escrevo adaptações, gravo versões, exploro elementos de cena, figurinos e músicas, noutros faço narrações procurando me aproximar mais dos mestres de contação das comunidades tradicionais com os quais estudei ou nos quais me inspiro a partir de livros. Me instiga a pesquisa e narração sobre princesas protagonistas, tradição oral, lendas dos povos originários, cultura popular, sagrado feminino, histórias de sabedoria e de personagens enfrentando suas “jornadas de herói” de forma inspiradora.

YO – Como as pessoas podem acessar o seu trabalho e adquirir os seus livros? Após o lançamento na Bienal você pretende divulgar o seu lançamento em outros estados brasileiros?

FM – As contações tenho postado no Instagram @franzocabrandao, parte das narrações vão também para o www.francinebrandao.com.br e os demais projetos culturais divulgo na fan page profissional Empório da Palavra (https://www.facebook.com/francinemachadodemendonca/). Depois da Bienal, a editora comercializará na livraria virtual Asabeça (http://www.asabeca.com.br/detalhes.php?prod=8536&friurl=_-A-PIRUETA-DA-BAILARINA-FOFINHA–Francine-Machado-_&kb=887#.W2kVu9JKjIU). Estou estudando e negociando lançamento noutros espaços, mas ainda avaliando dias, horários, espaços e eventos interessantes.

Reportagem: Yve de Oliveira

Imagens: Acervo pessoal Francine Brandão (Facebook)

 

 

 

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