Brincar é preciso – Entrevista com Sirlândia Reis de Oliveira Teixeira

A brincadeira é um dos elementos primordiais da infância.  Por meio dessa ação lúdica é que a criança vai processando o seu desenvolvimento físico, mental e emocional e estabelecendo relações e aprendizagens.

Em tempos onde cada vez mais as crianças trocam as brincadeiras presenciais por jogos digitais, até solitários, espaços como as brinquedotecas vêm ganhando força no incentivo a interação e experiência dos pequenos homo ludens.

Para aprofundar esse entendimento sobre a importância do brincar na infância o Lugar de Fala conversou com Sirlândia Reis de Oliveira Teixeira.

bDoutora em Educação pela Universidade de São Paulo, Mestre em Psicologia, Psicopedagoga, Psicóloga, Pedagoga, membro diretor da Associação Brasileira de Brinquedotecas, membro da International Toy Library Association, experiência em gestão na primeira infância, pesquisadora da Faculdade de Educação da USP e experiências em acompanhamento e orientação familiar.

É também autora de vários livros  e artigos científicos publicados no Brasil e no exterior. Professora na graduação e coordenadora na Pós-Graduação em Psicopedagogia e atua como Consultora da empresa Reis Ludos – Educação e Ludicidade e do Colégio Eco Montessori.

Yve de Oliveira – Sirlândia você é Doutora em Educação, Psicóloga, Professora Universitária. Quando você compreendeu que o seu propósito de vida estava conectado em colaborar na pesquisa e no desenvolvimento das pessoas, principalmente crianças?

Sirlândia Reis – Sim, ao estudar o desenvolvimento e a aprendizagem humana e depois estudar a infância com profundidade, observei que as crianças não têm voz nem vez na nossa sociedade, por isso entendi que o nosso papel como professora é criar situações que favoreça a participação das crianças de forma ativa.

YO – Como era a Sirlândia criança? Quais eram as suas brincadeiras favoritas e o que essa experiência te conectou com a temática da ludicidade e das brinquedotecas infantis?

SR- A Sirlândia criança cresceu no interior, local onde brincava na rua sem a preocupação de veículos ou pessoas perigosas. Todos se conheciam e as brincadeiras, de Amarelinha, Cinco Marias, Elástico, Barra Mantega, Cirandas diversas, Pega Varetas, Mona Mula, Mãe da Rua, Pega pega e várias outras, além de colecionar papel de carta e depois na adolescência “brincar” muitíssimo de patins. Na roça também, ao acompanhar a família em alguma atividade, várias frutas serviam de bichinhos que eu e minhas irmãs ao brincar dávamos vida a tantas frutas incrementando-as com pequenas varetas e fazendo do chão de terra lindas estradas e belíssimas casas com suas diversas famílias.

Nas festas tradicionais, muitas brincadeiras como Cabra cega, Pau de sebo, Frutas na árvore e várias outras faziam a alegria das crianças do interior.

Além disso, os pais eram mais próximos e os avós e os pais além de brincarem e contarem histórias lindíssimas e encantadoras ficávamos horas ao anoitecer vendo a lua e as estrelas no céu, rindo e numa relação tranquila. Na escola, a Sirlândia criança teve poucas brincadeiras na sala de aula, mas no recreio brincávamos muito.

As poucas vezes que a professora brincou eu lembro até hoje, ela dava cocadas para quem acertasse primeiro as perguntas que ela fazia, como eu amo cocada, comecei a acertar todas bem rápido e logo ela me tirou da brincadeira porque eu já tinha cocadas demais.

YO – Em qual medida a educação brasileira incentiva a ludicidade apenas na Educação Infantil, eliminando a cultura do brincar e privilegiando os conteúdos formais no Ensino Fundamental?

SR – No meu ponto de vista, poucas escolas incentivam a brincadeira, mesmo na educação infantil, tampouco no Fundamental. Isso do ponto de vista dos direitos da criança é um “crime”, pois lhe é furtado diariamente o seu direito de ser criança e de aprender por meio das suas próprias experiências e interesse. Os professores precisam entender que brincando se aprende, mesmo quando não há o objetivo de ensinar.

De Platão (a.C) a Vygotsky, todos os autores afirmam a importância da brincadeira como ponto mais alto do desenvolvimento e mesmo assim as escolas ignoram e se prendem a ensinar de modo enfadonho e cansativo.

A escola que deveria ser um lugar de prazer, muitas vezes é um lugar que adoece pela maneira como lidam com nossas crianças. Isso me chateia muito!

Mas vejo, dando aulas no curso de Pedagogia há quase 15 anos uma certa desvalorização do brincar, mesmo por parte dos futuros professores, pois na faculdade os próprios professores não compreendem a importância do brincar como fundamental para potencializar os talentos e exaltar os gênios escondidos e massacrados pelos conteúdos prontos e engessados.  Há muito o que se fazer neste sentido!! O próprio Piaget diz que a inteligência nasce no brincar, porque negligenciar algo que é real e traz alegria para as crianças na escola? Ou será que escola também não é lugar de ser feliz?

YO – O seu mais recente livro “Jogos, Brinquedos, Brincadeiras e Brinquedoteca: Implicações no Processo de Aprendizagem e Desenvolvimento” você pontua a importância desses elementos lúdicos para o desenvolvimento global das crianças. Conte-nos como surgiu a ideia para esta publicação e como, a partir deste livro, os educadores ou profissionais de áreas correlatas podem criar projetos educacionais, por meio do conceito das brinquedotecas?

SR – Na verdade, esse livro já é a 4ª edição. De alguma forma eu sempre estive muito ligada as questões da infância e o livro nasceu de um capítulo da minha dissertação. Na época eu já era professora do curso de Pedagogia e sentia falta de um material que mostrasse na prática a importância das brincadeiras para o desenvolvimento global das crianças.

Este livro é muito utilizado por profissionais da educação e da saúde, por conter uma contextualização dos jogos, brinquedos e brincadeiras, e, também uma parte prática explicando o que está acontecendo no desenvolvimento e na aprendizagem enquanto a criança está brincando ou jogando.

Os profissionais podem criar projetos sobre o brincar e o jogar ou sobre um tema transversal e usar o brincar, brinquedo e jogo como estratégias para a aplicação das atividades. A brinquedoteca é um espaço preparado e “protegido” onde a criança é autorizada a brincar livremente e ser feliz. Talvez seja o único lugar onde a criança pode ser ela mesma e quem ela quiser.

10407283_1143128172367312_1338186448360130310_n

YO – Você também escreveu o livro” Dislexia na Educação Infantil: Intervenção com Jogos, Brinquedos e Brincadeiras”. A partir das suas pesquisas e experiências profissionais, o que pode ser melhorado no contexto da inclusão educacional das crianças com deficiências mental e física nas escolas?

SR – Esse livro é fruto de resultados de pesquisas que eu a minha amiga Solange Martins fizemos.  A ideia do livro é mostrar que há como trabalhar com a prevenção dos sintomas da dislexia antes deles serem diagnosticados por volta dos 6 anos, depois que há jogos, brinquedos e brincadeiras que vão atuar diretamente na área do cérebro e fazer intervenção de certos sintomas.

Isso é fantástico se usado como estratégia no contexto da inclusão educacional das crianças com deficiências físicas ou mentais na escola.

Prova disso é que a própria história da brinquedoteca nos mostra como os brinquedos e jogos eram usados com eficiência com as crianças deficientes.

Há para cada necessidade um jogo ou um brinquedo que pode “modular” ou estimular a área do cérebro e contribuir para minimizar os sintomas, ou, por exemplo, ser usado como um recurso didático ou prático para ampliar o mundo das crianças com deficiências bem como sua inclusão no mundo que o rodeia.

YO – Ainda neste contexto, você acredita que apenas a inserção das crianças com deficiências no espaço escolar regular já garante a sua possibilidade de desenvolvimento? Qual seria o plano/projeto educativo ideal tanto para alunos quanto os professores?

SR – Com certeza apenas a inserção das crianças com deficiência está longe de garantir o desenvolvimento, mas ajuda muito. Porém há ainda muitíssimo o que se fazer pelas crianças com deficiência.

Acredito que não há um modelo ideal, porém há maneiras mais próximas para alcançar o potencial das crianças em diferentes contextos.

Penso que de acordo com cada realidade os profissionais da escola poderiam planejar de acordo com as necessidades das crianças os materiais e objetos lúdicos adequados para cada necessidade. Esse é um projeto amplo e profundo que precisa de apoio da família e das políticas públicas para se efetivar.

40337311_2222949824385136_5975496859718778880_n

YO – Sirlândia, você apresenta um programa de televisão voltado para a infância e é consultora na empresa Reis Ludos. Como vem sendo a repercussão do seu público em relação aos conhecimentos trazidos por meio das suas entrevistas? Você acredita ser possível integrar as novas tecnologias com os espaços de brincar, como as brinquedotecas? Existe interesse das famílias em criar essa vinculação com esses espaços, bem como com seus filhos?

SR – O programa TV Infância surgiu da necessidade de encontrar uma forma de dar voz à criança,  e o nome “TV Infância”   (sugerido pelo meu filho de 7 anos na época) entendi como um trocadilho, porque a tv tira a voz da criança. Então a ideia é dar voz por meio da discussão dos temas relacionados a saúde, educação e cultura, já a palavra infância significa sem voz, então, por isso a TV Infância dá voz à criança.

A repercussão tem sido bem interessante, a grande maioria do público é formado por  professores, ou futuros professores, pais mais antenados com as questões da infância, profissionais da saúde e pesquisadores da infância.

Os programas gravados têm sido usados por professores de faculdade que usam para dinamizar a aula.  Vindo de encontro com a valorização da infância, a Reis Ludos é um espaço de brincar que busca formar pessoas e garantir o direito de as crianças brincarem.

As novas tecnologias são bem vindas, porém não podemos fazer delas a atração principal. As tecnologias são saudáveis quando não ocupam tanto o espaço físico e psicológico da criança e dos pais.  Não há como substituir o brincar de corpo inteiro como acontece na brinquedoteca ou ao ar livre, pelo brincar na maioria das vezes utilizando o cérebro e os dedos no caso dos celulares e tablets. Estes podem ser mais um dentro de uma diversidade de outros fazeres do brincar da criança.

Quanto as famílias, observo que esses espaços de brincar como a brinquedoteca tem sido timidamente aceito pelas famílias, pois não faz parte da nossa cultura “pagar para brincar” ou a ideia de negócio com o brincar.

O ideal seria se não precisasse de espaços específicos de brincar e sim de mais tempo dos adultos brincando e sendo felizes com as crianças.

Quando brincamos estamos potencializando a saúde e a felicidade dos brincantes.  Vejo que quando a família compreende a proposta do brincar como uma atividade própria da criança e que ela precisa de um espaço preparado com profissionais preparados para isso, elas super aderem a brinquedoteca; já as crianças 99% amam estar num lugar como uma brinquedoteca e poder ser eles mesmas.

Para conhecer mais sobre o trabalho de da Doutora Sirlândia Reis Oliveira acesse: https://www.facebook.com/sirlandia.teixeira.54

Reportagem: Yve de Oliveira

Fotos: Acervo Sirlândia Reis de Oliveira Teixeira/ Facebook

Anúncios